Barthes disse que Lacan disse:
"eu-te-amo não é uma frase: não transmite um sentido, mas se prende a uma situação limite: "aquela em que o sujeito está suspenso numa ligação especular com o outro." É uma holofrase
no fragmentos de um discurso amoroso.
sábado, dezembro 05, 2009
sábado, agosto 01, 2009
Cada um no seu quarto agora
Flores, secas ou frescas e amarelas
Das miúdas ou das bem grandes que só ficam bem se sozinhas na garrafa que faz de vaso
Na mesa, cobertor
Na poltrona, xícara
No armário, Camille
Na vitrola, cuecas
Tudo de um jeito junto, no nó que a gente desatou e não consegue dar
Das miúdas ou das bem grandes que só ficam bem se sozinhas na garrafa que faz de vaso
Na mesa, cobertor
Na poltrona, xícara
No armário, Camille
Na vitrola, cuecas
Tudo de um jeito junto, no nó que a gente desatou e não consegue dar
quarta-feira, julho 15, 2009

Foi quando eu não me incomodava ainda em arrumar o cabelo depois de sair da piscina que a gente se conheceu. Aquela amizade forçada pelos pais, vai brincar com ele, filha, ele tem quase a sua idade. Na verdade você já tinha quase uma cabeça a mais do que eu e naquela época eu me sentia acuada com meninos mais velhos. Além do mais, não gostava que minhas bóias tivessem desenhos, preferia uma toda lisa como a sua.
Tínhamos um amigo em comum, ou amiga, eu não sei mais, era filho ou filha do pessoal da fazenda, mas desse ou dessa eu não me lembro mesmo. Nem do exato lugar onde o sítio ficava. Nítida é a lembrança de um passeio a cavalo com você. As datas estão um pouco embaralhadas, não sei mais se foi nessa mesma época ou uns anos depois. Havia um canal, feito o do Leblon, mas sem poluição. Muitas árvores em volta e chão de terra com pedrinhas. Alugávamos os cavalos, que, coitados, andavam com tapa-olhos – coisa que eu nunca entendi pra que servia mesmo depois de terem me explicado. Os bichos faziam sempre o mesmo trajeto ao redor do canal e à mesma velocidade. Não sei mais se se pagava por hora ou por volta, o fato é que toda vez que a baia se aproximava eles faziam menção de entrar; precisavam ser puxados por um adulto no caso da criança querer mais uma volta e os pais consentirem. Eram todos muito automático e aparentemente pacíficos, domesticados. Entretanto nesse dia eu tive pânico e tive também vergonha do meu pânico na sua frente. Então enfrentei. Subi no cavalo, na carona de alguém, talvez do seu pai, acho que eu era muito pequena ou muito medrosa para andar sozinha. O coração quente por dentro, mas você estava lá na frente, andando quase a galope e eu não queria passar por menininha fresca, então fui respirando fundo, mesmo sem ninguém ter me ensinado esta técnica a ser praticada quando estamos com medo. Deve ser instintivo. Fui respirando fundo, fundo e quando acabou a primeira volta, pedi para descer. Hoje em dia eu continuaria, mesmo com trauma de cavalo.
quinta-feira, julho 09, 2009

Eu tinha um ano e meio, mas estranhamente me lembro deste dia. Essa cena é parte daquelas histórias que te contam tanto que você acaba achando que lembra, pode ser isso também.
Era de manhã cedinho no balneário. As crianças acordam bem mais cedo do que os adultos nesses lugares e nesta hora não havia ainda movimento de lanchas, devia ser um sábado.
Meu pai me contou que na manhã do dia seguinte, o mar estava mais calmo e limpo e ele me ensinou a respirar pelo snorkel ajoelhada à beira d’água, morninha em dia de sol. Depois, ainda de joelhos, ficamos os dois de snorkel e máscara. Avançamos um pouco mais na água e eu conseguia ver o fundo da areia, conchas e peixinhos.
Meu pai colocou então um par de pés de patos nele e em mim, devia ser minúsculo e colorido! Me levou para um passeio em águas mais profundas e ele disse que eu curti um visual calmo, tranqüilo.
Ele foi me puxando devagarinho, me ensinando a usar os pés de pato. Sutilmente foi largando a minha mão e eu fiquei ao lado dele. Devia estar olhando aquela água toda em volta, pensando naquele cara tão legal ao meu lado me dizendo coisas. Ele viu que eu estava segura, mergulhou e se virou de barriga para cima, abaixo de mim, ficamos nos olhando enquanto eu flutuava e nadava com o rosto afundado na água.
Foi assim, simples. Rapidinho eu estava nadando! Com a bicicleta foi muito mais difícil...
terça-feira, maio 26, 2009
Uma certa hora do dia.
Adoro essa hora do dia, o começo da noite, quando já está escuro, mas o breu não é absoluto. É horário de cansaço, de forçar o olhar para a leitura, de pensar no jantar para os que jantam ou de tomar um café com uma besteira para acompanhar.
É hora de ir pro balé depois da escola ou pro futebol de salão. De se largar no sofá e ligar a tv. Uma pausa nas ideias, cabeça fervilhando e a gente sem saber por que nem para que tanta coisa. Talvez seja hora também de ler o artigo separado do jornal de domingo. Ou de caminhar pelo bairro e ver como estão as pessoas, que roupas têm vestido para ir trabalhar?
Daqui a pouco essa hora passa e volta a vontade de casar.
É hora de ir pro balé depois da escola ou pro futebol de salão. De se largar no sofá e ligar a tv. Uma pausa nas ideias, cabeça fervilhando e a gente sem saber por que nem para que tanta coisa. Talvez seja hora também de ler o artigo separado do jornal de domingo. Ou de caminhar pelo bairro e ver como estão as pessoas, que roupas têm vestido para ir trabalhar?
Daqui a pouco essa hora passa e volta a vontade de casar.
quarta-feira, fevereiro 11, 2009
Pólos amigos
Atendo o telefone e ele mudo. Alô, alô, mudo. Tenho o que fazer, mas o trim trim me perturba. E sempre mudo.Vou da cooperativa de egressos da penitenciária produtores de sabão a partir de óleo diesel a uma mostra de documentários sobre arte e não saio do lugar. Meus dentes rangem. Preciso de uma mesa nova, mas prefiro amor. Preencher formulários, traduzir textos, mas prefiro fotos. Vista pro cristo, prefiro praia. Estou assim, com um monte de coisas e nada. Entre o trágico e a comédia. Rica e pobre, desconsertada.
quarta-feira, dezembro 17, 2008
Casos sérios
Andava de um lado para o outro do corredor, mordendo os lábios, respirando fundo para se acalmar, se abanando com a propaganda de supermercado. Sentava e levantava, passava as mãos nos cabelos, e jogava a franja para trás da orelha. Maria Lúcia era do tipo certinha, nunca tinha dado um passo em falso na vida, movimentos todos muito calculados. Escola-faculdade-estágio-emprego fixo-fórum. Aos trinta e dois anos, promotora de justiça com boa fama. Agora lhe aprontava essa, a vida, puxaram-lhe o tapete e ela não sabia como sair do chão. O amor, essa coisa, sabe como é, a gente fica submissa mesmo, logo ela, que horror. Tinham acabado de chegar da Europa, os dois. Foi o avião aterrissar para ele sumir por quatro dias. Tudo tão lindo nos cafés de Marrais, nos lençóis brancos do hotel, dentre as tulipas de Den Haag, Amsterdã à beira mar, mais chique.
O caso era difícil, o daquela semana, ela tinha que estudar, montar uma estratégia, mas não ligava, não tinha medo, a cabeça não parava de pensar nela e nele e no que seria. Maria Lúcia foi procurar uma analista, Dra. Cláudia, indicação do juiz do tribunal, parece fera.
Leila, casada há três anos, namorou sete (anos, o mesmo cara). Um filhinho lindo, sobrinho querido, neto preferido. Tailleur todo dia, salto de bico fino, criança numa mão, chave do carro na outra. No fim do dia não tinha mais jantar a dois, cafuné na cama. Do dia para noite ele resolveu sair de casa, sei lá, viver todas as mulheres do mundo que ele não notava existirem nos últimos dez anos. O cara estava no auge e Leila ainda apaixonada. Ela sabia que ele gostava dela, sentia, mulher acha que sente essas coisas. Então ela deixou ele ir para ver qual era até porque não lhe restava outra opção. Foi e foi e foi mais um pouco até que surgiu a outra.
O cara entrou em conflitos. Sérios. Conflitos sérios. Não sabia mais o que queria, antes ele achava que era galinhar um pouco e voltar para casa, mas agora não sabia mais se tinha casa, que casa que era, aquela confusão, a maioria da gente sabe bem. O cara pirou tanto que em festa de família, quando era território neutro, tipo aniversário da prima, ele levou ela, a outra. Para dizer para mãe e para a avó – que já tinham dito que na casa delas, só a Leila – que ele tinha a vida dele e fazia dela o que bem entendia – da vida, só para especificar melhor. Ela mostrou-se muito simpática com todos e era uma mulher bem vestida, segura de si, bem resolvida. Dava até para entender a confusão do cara, imagina? Entre a cruz e a espada, diria minha falecida avó (que dentre a coleção de bordões gostava de repetir ‘antes mal acompanhada do que só’).
Sérgio estava assim, refém do coração, cansado de arquitetar planos para ver uma e outra. Passava o fim de semana com Maria Lúcia, os dias de semana com Leila. Uma fingia que não sabia da outra, porque amavam muito. Sérgio deixa levar, não consegue assumir uma atitude, tomar partido por um lado. Resolve viajar, vai para a Europa e leva Maria Lúcia. Lua-de-mel incrível. Volta e vai encontrar com Leila. Leila está namorando. Ele se tranca em casa por três dias, não consegue fazer nada. Liga para mãe e diz que ela “chutou o balde”. A mãe ri do outro lado e ele fica irritado, nervoso. “Não é bom ser corno, sabia?”
Sérgio marca um jantar num restaurante novo, à luz de velas, gostou de lá porque da primeira vez que entrou estava tocando Calvin Harris e Leila que havia apresentado-o. Mandou um buquê de flores com endereço e hora do jantar. Ela foi correndo, pode imaginar, mulher apaixonada, querendo curar as dores do amor com outro, mas louca para continuar a vida vidinha, ele, ela, o filhinho, casa-trabalho-casa, jantarzinho, cafuné, cama. Tem mulher que gosta. Pronto. Ele convenceu, ela desmanchou tudo com o outro cara – médico, bem sucedido, apaixonado. Deixou ele para lá para o recomeço.
Tudo pronto, casa arrumada, lençóis trocados esperando a volta dele no dia combinado. Nada. Anoiteceu e nada. Leila foi procurar uma analista, Dra. Cláudia, indicada pelas amigas, parece fera.
O caso era difícil, o daquela semana, ela tinha que estudar, montar uma estratégia, mas não ligava, não tinha medo, a cabeça não parava de pensar nela e nele e no que seria. Maria Lúcia foi procurar uma analista, Dra. Cláudia, indicação do juiz do tribunal, parece fera.
Leila, casada há três anos, namorou sete (anos, o mesmo cara). Um filhinho lindo, sobrinho querido, neto preferido. Tailleur todo dia, salto de bico fino, criança numa mão, chave do carro na outra. No fim do dia não tinha mais jantar a dois, cafuné na cama. Do dia para noite ele resolveu sair de casa, sei lá, viver todas as mulheres do mundo que ele não notava existirem nos últimos dez anos. O cara estava no auge e Leila ainda apaixonada. Ela sabia que ele gostava dela, sentia, mulher acha que sente essas coisas. Então ela deixou ele ir para ver qual era até porque não lhe restava outra opção. Foi e foi e foi mais um pouco até que surgiu a outra.
O cara entrou em conflitos. Sérios. Conflitos sérios. Não sabia mais o que queria, antes ele achava que era galinhar um pouco e voltar para casa, mas agora não sabia mais se tinha casa, que casa que era, aquela confusão, a maioria da gente sabe bem. O cara pirou tanto que em festa de família, quando era território neutro, tipo aniversário da prima, ele levou ela, a outra. Para dizer para mãe e para a avó – que já tinham dito que na casa delas, só a Leila – que ele tinha a vida dele e fazia dela o que bem entendia – da vida, só para especificar melhor. Ela mostrou-se muito simpática com todos e era uma mulher bem vestida, segura de si, bem resolvida. Dava até para entender a confusão do cara, imagina? Entre a cruz e a espada, diria minha falecida avó (que dentre a coleção de bordões gostava de repetir ‘antes mal acompanhada do que só’).
Sérgio estava assim, refém do coração, cansado de arquitetar planos para ver uma e outra. Passava o fim de semana com Maria Lúcia, os dias de semana com Leila. Uma fingia que não sabia da outra, porque amavam muito. Sérgio deixa levar, não consegue assumir uma atitude, tomar partido por um lado. Resolve viajar, vai para a Europa e leva Maria Lúcia. Lua-de-mel incrível. Volta e vai encontrar com Leila. Leila está namorando. Ele se tranca em casa por três dias, não consegue fazer nada. Liga para mãe e diz que ela “chutou o balde”. A mãe ri do outro lado e ele fica irritado, nervoso. “Não é bom ser corno, sabia?”
Sérgio marca um jantar num restaurante novo, à luz de velas, gostou de lá porque da primeira vez que entrou estava tocando Calvin Harris e Leila que havia apresentado-o. Mandou um buquê de flores com endereço e hora do jantar. Ela foi correndo, pode imaginar, mulher apaixonada, querendo curar as dores do amor com outro, mas louca para continuar a vida vidinha, ele, ela, o filhinho, casa-trabalho-casa, jantarzinho, cafuné, cama. Tem mulher que gosta. Pronto. Ele convenceu, ela desmanchou tudo com o outro cara – médico, bem sucedido, apaixonado. Deixou ele para lá para o recomeço.
Tudo pronto, casa arrumada, lençóis trocados esperando a volta dele no dia combinado. Nada. Anoiteceu e nada. Leila foi procurar uma analista, Dra. Cláudia, indicada pelas amigas, parece fera.
quinta-feira, dezembro 04, 2008
Ideal place to be
Tonight I wanna a bar with absolutely no glamour, no humour, low music.
Where the beer they serve is of any kind – the name I wouldn’t remember because it’s not made to be remembered.
A simple working-class bar with cheap tobacco.
Where the owners haven’t even heard about the law that forbids smoking inside.
Drunken no-ones, toothless prostitutes, music from the juke Box.
Is my accent strange? I like not being spectacular.
Where the beer they serve is of any kind – the name I wouldn’t remember because it’s not made to be remembered.
A simple working-class bar with cheap tobacco.
Where the owners haven’t even heard about the law that forbids smoking inside.
Drunken no-ones, toothless prostitutes, music from the juke Box.
Is my accent strange? I like not being spectacular.
segunda-feira, dezembro 01, 2008
a dois
Encontram-se na cozinha por acaso, vindos de seus computadores.
Ele: - Acho que para eu me tornar um cara especializado, só com 40 anos.
Ela: - Por que você não se especializa nessas coisas de computador, você adora.
- Eu gosto.
- Então. Eu ADORO.
- Então por que você não faz?
- Porque tem coisas que eu gosto mais.
- Eu também.
- (levemente irritada): O que por exemplo? Arte contemporânea?
Ele dá aquele risinho maroto, de lado, aquela boca carnuda de lado. Ela ri junto e abre a geladeira. Ele vai diretamente na gelatina tangerina que ainda está mole, ela diz a ele. Ainda? E mete o dedo na superfície molenga, laranja.
Ela: - Quando eu era pequena, a gelatina lá de casa vinha sempre cheia de marcas de dedinhos meus e dos meus irmãos.
Ele: - Sua família é maluca.
Ela: - Não é assim como você pensa, não.
Ele olha para ela com o olhar virado, como se tivesse olhando para alguém mais alto do que ele. Ela só de calcinha lavando louça. Encostado na porta, ele:
- Não é porque eu to olhando seu corpo não, tá beibe?, mas você nunca mais correu, por quê?
- Preciso responder? Não tive saúde nos últimos dias.
Ela volta para suas histórias, pensa em coisas simples, como em procurar a chave do carro na bolsa imensa, abrir a porta e ir para onde for observando como os urubus secam as asas nos postes. Ele volta pro dreamweaver, uma vozinha o perseguindo em inglês, sem dialogar com ele especificamente, ele obedece ao robô. Ela ouve Rhapsody in Blue, no fundo não queria arrumar um emprego, queria cuidar dos pássaros no jardim, ouvir muitas músicas, todas as possíveis, ir ao supermercado e comprar um skate. Gerschwin, feira, alpiste. Fila do banco, da xerox, ônibus. Uma casa longe, textos encomendados que pareciam chatos, mas podem ser legais, óculos enormes.
Hoje ele comentou dos óculos dela. Novos. Perguntou se o trocador ficou rindo dela. Ela sabe que os trocadores riem dos exageros; disse que sim e mostrou o ensaio que fez de si mesma com os óculos novos. Ele disse que era divertido por isso, uma surpresa a cada dia.
Ela pensa em arrumar um amante que gostasse que ela escrevesse no caderno mais caro da papelaria, de capa de couro preta. Que não reclamasse da hora que ela acorda, nem da falta de movimento, que falasse bastante à mesa e de quem ela não pudesse adivinhar os pensamentos.
- Mas não dá para comprar lingerie pra você sem saber seu número, dá? - entra ele carregando seu copo de leite com achocolatado orgânico.
- Ué, você não sabe meu número?
Olha para ele e tem a certeza de que com todas as dúvidas, ele não vai conseguir arriscar ir e deixar. Se não para quem reclamar que não quer ir dormir na hora que ela chama todas as noites, que o cano da pia estourou e precisa secar o banheiro. Da hora de ver o programa de domingo, do charuto novo, do chocolate de bolinhas da Costa Rica, do site incrível.
Ele: - Acho que para eu me tornar um cara especializado, só com 40 anos.
Ela: - Por que você não se especializa nessas coisas de computador, você adora.
- Eu gosto.
- Então. Eu ADORO.
- Então por que você não faz?
- Porque tem coisas que eu gosto mais.
- Eu também.
- (levemente irritada): O que por exemplo? Arte contemporânea?
Ele dá aquele risinho maroto, de lado, aquela boca carnuda de lado. Ela ri junto e abre a geladeira. Ele vai diretamente na gelatina tangerina que ainda está mole, ela diz a ele. Ainda? E mete o dedo na superfície molenga, laranja.
Ela: - Quando eu era pequena, a gelatina lá de casa vinha sempre cheia de marcas de dedinhos meus e dos meus irmãos.
Ele: - Sua família é maluca.
Ela: - Não é assim como você pensa, não.
Ele olha para ela com o olhar virado, como se tivesse olhando para alguém mais alto do que ele. Ela só de calcinha lavando louça. Encostado na porta, ele:
- Não é porque eu to olhando seu corpo não, tá beibe?, mas você nunca mais correu, por quê?
- Preciso responder? Não tive saúde nos últimos dias.
Ela volta para suas histórias, pensa em coisas simples, como em procurar a chave do carro na bolsa imensa, abrir a porta e ir para onde for observando como os urubus secam as asas nos postes. Ele volta pro dreamweaver, uma vozinha o perseguindo em inglês, sem dialogar com ele especificamente, ele obedece ao robô. Ela ouve Rhapsody in Blue, no fundo não queria arrumar um emprego, queria cuidar dos pássaros no jardim, ouvir muitas músicas, todas as possíveis, ir ao supermercado e comprar um skate. Gerschwin, feira, alpiste. Fila do banco, da xerox, ônibus. Uma casa longe, textos encomendados que pareciam chatos, mas podem ser legais, óculos enormes.
Hoje ele comentou dos óculos dela. Novos. Perguntou se o trocador ficou rindo dela. Ela sabe que os trocadores riem dos exageros; disse que sim e mostrou o ensaio que fez de si mesma com os óculos novos. Ele disse que era divertido por isso, uma surpresa a cada dia.
Ela pensa em arrumar um amante que gostasse que ela escrevesse no caderno mais caro da papelaria, de capa de couro preta. Que não reclamasse da hora que ela acorda, nem da falta de movimento, que falasse bastante à mesa e de quem ela não pudesse adivinhar os pensamentos.
- Mas não dá para comprar lingerie pra você sem saber seu número, dá? - entra ele carregando seu copo de leite com achocolatado orgânico.
- Ué, você não sabe meu número?
Olha para ele e tem a certeza de que com todas as dúvidas, ele não vai conseguir arriscar ir e deixar. Se não para quem reclamar que não quer ir dormir na hora que ela chama todas as noites, que o cano da pia estourou e precisa secar o banheiro. Da hora de ver o programa de domingo, do charuto novo, do chocolate de bolinhas da Costa Rica, do site incrível.
quinta-feira, setembro 25, 2008
Essa história já começa feia e não é bem ela que eu quero escrever. O tempo passou, eu continuo escrevendo, mas não parece. Todos os textos estão em letras minúsculas, tão mínimas que a vista não alcança nem com muito esforço. Apesar de não conseguir enxergar nada de todas as letras que juntei e que viraram palavras que unidas tornaram-se frases e assim por diante, fiz grandes descobertas nessa busca em tentar enxergar o que estavam naquelas letras de antigamente. Eu perguntava às gentes o que estava escrito ali, ninguém sabia dizer e eu também cansei de perguntar, queria descobrir sozinha porque em verdade aquelas letras eram tão, mas tão pequenas que não pareciam importar a ninguém e só eu mesma poderia decifrá-las, porque só eu poderia um dia descobrir o que tinha ficado ali que eu não lembrava mais.
segunda-feira, agosto 04, 2008
Se é que deuses existem.
Tenho até um mac bonitinho para escrever, casa vazia, filme sobre o processo criativo da escrita, um abajour anos 20, bloco, papel, caneta, lápis e borracha. Impressora funcionando. Saudades. Parece que não precisa de mais nada, é só sentar e bater as frases que vivo formulando na cabeça, juntar o monte de palavras ou frases soltas e tentar achar uma coesão, colocar ação no fluxo de pensamentos.
Escrever não pára (com acento que se nega a sair de cena) de fazer sentido, mas parece que é só pra mim e mais meia dúzia. Tinha a impressão de que fluía melhor quando eu era sozinha. Como vi ou ouvi no tal do filme, achei alguém para dar colo para os meus excessos. Não era bem assim no filme, mas assim foi entendido. Com colo e tudo eu me sinto só, mesmo sabendo, tendo quase a certeza de que não estou. Quando penso que de um dia para o outro posso voltar a estar só me vem com a fragilidade mais força ainda para ser independente, continuar a ser como eu era sozinha, só que agora com alguém. Parece que não dá, que é querer coisas demais, ser e ser também, ao mesmo tempo. É desejar ser super. Como eu disse ontem, meio bêbada, na verdade o que eu queria era ser famosa. Não para desfrutar do showbizz, mas literalmente para viver os louros da fama, poder fazer o que eu quiser que todos vão acreditar no meu projeto de filme, livro, peça de teatro, música, sei lá. Se bem que eu acho que se eu fosse famosa eu talvez não tivese estímulo para fazer porra nenhuma.
Pensei em ter um cartão depois de fazer um site: nele meu nome estaria grafado com toda a vaidade que me permite e abaixo, no lugar do crédito “prefiro não me definir”. Talvez ficasse muito grande, seria melhor colocar “multimídia”. Ou nada, fica menos arrogante, apenas “acessem o site, viramos todos um bando de www mesmo”.
Quando estou meio bêbada é sempre um momento de falar que eu gosto de escrever, é quando me permito. Nem sei mais se sei. Se curto ou não. Parei de ter tempo, não dei prioridade, tenho lembranças de um gosto bom e um nó no peito - angústia por não ter ido até o fim. Se tivesse dinheiro envolvido talvez eu conseguiria, mas assim, por compromisso com a escrita e comigo mesma, só se tivesse tempo e dinheiro no bolso. Não tendo, serve de desculpa.
Quero ser artista porque artista dá vazão ao pensamento. Não é isso que artista faz? Sente o que todo mundo sente, mas faz alguma coisa com isso. Gostaria de poder parar e fazer coisas com os sentimentos; saio atropelando eles por aí, deixando-os de lado, virando a página, procurando um novo encontro para já deixar o que mal começou pra trás. Diz Spinoza que é bom e apesar de eu concordar muito com ele, fico em dúvida. Tá certo que o melhor jeito de curar uma paixão é arrumando outra, mas esse negócio de deixar de lado o que incomoda pode ser pior. O problema vai ganhando dimensões ao invés de ser resolvido.
Sofrer para mim não é problema, se é que o verbo se encaixa na lista de atributos para ser um escritor. Hoje mesmo cheguei em casa contente de ser só eu, eu só e com saudades, mais ninguém além de mim e das minhas coisas. Minhas e dele. Fui pensando que feliz daquele jeito não podia, não saía texto nenhum, coisa e tal. Enrolei um pouco para sentar, lavei a louça, fiz comida, escovei os dentes, botei roupa de ficar em casa, fiz uns telefonemas e pronto – já estava sofrendo. Como eu disse pro cara que mora comigo e que eu ainda não estou a fim de citar o nome para não pessoalizar demais (a vida acadêmica inteira ouvindo que não se pode escrever em primeira pessoa dá em fobias desse tipo.), acho que a única coisa boa dos últimos tempos na minha vida é ele. Exagero. É que tudo em volta tá tão ruim que dá desespero. Nem tudo. O que dói é saber que eu me importo menos com o que eu deveria me importar mais. Tem certos assuntos que me agoniam, mas deixo eles de lado agora porque não quero entrar em detalhes, quero ser breve para conseguir reler e ver se tudo isso faz sentido.
Fui ao cinema querendo pagar meia, mas me boicotam, Em plena segunda-feira, achei que pagaria oito reais, mas eram dezoito. Paguei e foda-se. Tava muito a fim de ver o filme e não me arrependi. Não era bom, mas falava comigo e, numa segunda-feira de stress desnecessário (estresses no trabalho são desnecessários), precisava disso. Se me perguntarem se gostei, direi que gostei mais ou menos, não é um grande filme, mas é um grande filme para mim. Tenho conseguido distinguir melhor as artes assim, grandes obras e grandes obras para mim, não sei bem explicar a diferença. Não sei de porra nenhuma. Não tenho me importado com dinheiro, nem com a falta, nem com a sobra, tenho vivido somente e só de não me perturbar com isso agradeço a deus, se ele existisse...
As nossas palavras são somas do que ouvimos, me parece, me usando como exemplo pela falta de outros. Tem vezes que gosto tanto de frases que reproduzo-as interinhas. `As vezes só expressões. A gente deve ser isso, um somatório de experiências, entreouvidos e rabos de olho. É por isso que eu sou assim adaptável, mas cada vez mais cheia de não queros.
Tem uns probleminhas aí, to cheia deles, mas não me dá vontade nem de escrever só para mim, como maneira de refletir. Quero deixá-los e uma maneira que encontrei é não tocá-los, eles vão então indo assim de fininho, `a francesa como eu agora, depois de reler tudo.
Escrever não pára (com acento que se nega a sair de cena) de fazer sentido, mas parece que é só pra mim e mais meia dúzia. Tinha a impressão de que fluía melhor quando eu era sozinha. Como vi ou ouvi no tal do filme, achei alguém para dar colo para os meus excessos. Não era bem assim no filme, mas assim foi entendido. Com colo e tudo eu me sinto só, mesmo sabendo, tendo quase a certeza de que não estou. Quando penso que de um dia para o outro posso voltar a estar só me vem com a fragilidade mais força ainda para ser independente, continuar a ser como eu era sozinha, só que agora com alguém. Parece que não dá, que é querer coisas demais, ser e ser também, ao mesmo tempo. É desejar ser super. Como eu disse ontem, meio bêbada, na verdade o que eu queria era ser famosa. Não para desfrutar do showbizz, mas literalmente para viver os louros da fama, poder fazer o que eu quiser que todos vão acreditar no meu projeto de filme, livro, peça de teatro, música, sei lá. Se bem que eu acho que se eu fosse famosa eu talvez não tivese estímulo para fazer porra nenhuma.
Pensei em ter um cartão depois de fazer um site: nele meu nome estaria grafado com toda a vaidade que me permite e abaixo, no lugar do crédito “prefiro não me definir”. Talvez ficasse muito grande, seria melhor colocar “multimídia”. Ou nada, fica menos arrogante, apenas “acessem o site, viramos todos um bando de www mesmo”.
Quando estou meio bêbada é sempre um momento de falar que eu gosto de escrever, é quando me permito. Nem sei mais se sei. Se curto ou não. Parei de ter tempo, não dei prioridade, tenho lembranças de um gosto bom e um nó no peito - angústia por não ter ido até o fim. Se tivesse dinheiro envolvido talvez eu conseguiria, mas assim, por compromisso com a escrita e comigo mesma, só se tivesse tempo e dinheiro no bolso. Não tendo, serve de desculpa.
Quero ser artista porque artista dá vazão ao pensamento. Não é isso que artista faz? Sente o que todo mundo sente, mas faz alguma coisa com isso. Gostaria de poder parar e fazer coisas com os sentimentos; saio atropelando eles por aí, deixando-os de lado, virando a página, procurando um novo encontro para já deixar o que mal começou pra trás. Diz Spinoza que é bom e apesar de eu concordar muito com ele, fico em dúvida. Tá certo que o melhor jeito de curar uma paixão é arrumando outra, mas esse negócio de deixar de lado o que incomoda pode ser pior. O problema vai ganhando dimensões ao invés de ser resolvido.
Sofrer para mim não é problema, se é que o verbo se encaixa na lista de atributos para ser um escritor. Hoje mesmo cheguei em casa contente de ser só eu, eu só e com saudades, mais ninguém além de mim e das minhas coisas. Minhas e dele. Fui pensando que feliz daquele jeito não podia, não saía texto nenhum, coisa e tal. Enrolei um pouco para sentar, lavei a louça, fiz comida, escovei os dentes, botei roupa de ficar em casa, fiz uns telefonemas e pronto – já estava sofrendo. Como eu disse pro cara que mora comigo e que eu ainda não estou a fim de citar o nome para não pessoalizar demais (a vida acadêmica inteira ouvindo que não se pode escrever em primeira pessoa dá em fobias desse tipo.), acho que a única coisa boa dos últimos tempos na minha vida é ele. Exagero. É que tudo em volta tá tão ruim que dá desespero. Nem tudo. O que dói é saber que eu me importo menos com o que eu deveria me importar mais. Tem certos assuntos que me agoniam, mas deixo eles de lado agora porque não quero entrar em detalhes, quero ser breve para conseguir reler e ver se tudo isso faz sentido.
Fui ao cinema querendo pagar meia, mas me boicotam, Em plena segunda-feira, achei que pagaria oito reais, mas eram dezoito. Paguei e foda-se. Tava muito a fim de ver o filme e não me arrependi. Não era bom, mas falava comigo e, numa segunda-feira de stress desnecessário (estresses no trabalho são desnecessários), precisava disso. Se me perguntarem se gostei, direi que gostei mais ou menos, não é um grande filme, mas é um grande filme para mim. Tenho conseguido distinguir melhor as artes assim, grandes obras e grandes obras para mim, não sei bem explicar a diferença. Não sei de porra nenhuma. Não tenho me importado com dinheiro, nem com a falta, nem com a sobra, tenho vivido somente e só de não me perturbar com isso agradeço a deus, se ele existisse...
As nossas palavras são somas do que ouvimos, me parece, me usando como exemplo pela falta de outros. Tem vezes que gosto tanto de frases que reproduzo-as interinhas. `As vezes só expressões. A gente deve ser isso, um somatório de experiências, entreouvidos e rabos de olho. É por isso que eu sou assim adaptável, mas cada vez mais cheia de não queros.
Tem uns probleminhas aí, to cheia deles, mas não me dá vontade nem de escrever só para mim, como maneira de refletir. Quero deixá-los e uma maneira que encontrei é não tocá-los, eles vão então indo assim de fininho, `a francesa como eu agora, depois de reler tudo.
sexta-feira, maio 23, 2008
espaço-tempo fora daqui
Piso numas pedrinhas espaçadas no chão, parecem de ferro de tão lustrosas. Passar correndo por ali deve machucar o meio do pé, algumas das pedras são pontiagudas. O céu está azul como nos lindos dias de verão no Rio. O litoral parece não ter mais fim, sigo mais alta que todos, no último banco do ônibus, olhando a água límpida. Não vejo aglomeramentos tumultuados na areia.
Sem meu moleskine perdido, fico um pouco órfã andando sozinha. Desejaria escrever umas notas mas o coração fica apertado de pensar que todas as dos últimos três meses se perderam por aí. O caderno deve estar num limbo aonde meu biquíni azul marinho novo deve ter ido, lá onde dizem residir isqueiros e canetas bic.
Caminhar sozinha por uma cidade estranha dá a sensação de que o tempo é muito maior do que me parece todos os dias. Dou voltas me perdendo, reconheço o Capitães de Areia da adolescência entre uma espiada na procissão que se organiza em homenagem ao São Benedito, o Santo do dia, no meio do dourado de uma dentre as tantas igrejas na ladeira.
Estar só e sem precisar atentar à chamada do celular, alegria com ponto de exclamação. Olhando o mar, no ritmo da Bahia, já com três colares de contas coloridas na bolsa, me dá saudade de quem tem marido, é engraçado pensar nessa minha nova condição. Uma vontade de não ter mais tempo livre só para mim, de querer dividir todos os possíveis com ele.
Pego mais um ônibus dos muitos do itinerário e salto numa sala onde todos os quadros são pisos ou pelo menos me parecem assim. Sou a primeira a entrar no museu com vista para o horizonte infinito. O chão é de tábua corrida, o céu lá fora, repito, é muito azul e o mar agora está transparente.
A escada de madeira, retorcida, me conduz ao pranto. Perco o fôlego de ver o que realmente me importa no mundo, de perceber nas paredes os meus questionamentos de cada segundo em que me permito desacelerar e questionar.
Tenho vontade de rodopiar entre aqueles quadros só meus por um instante, dar piruetas de bailarina sozinha como quem ouve música alta. Fico parada, quanto me basta aquilo de só pensar.
Deparo com uns inscritos despretenciosos, de tina preta, letra de fôrma, na parede branca em frente à segunda igreja do caminho que resolvi tomar novamente.
„Estamos juntos
Condenados a morrer – sozinhos.
Viver junto é um sutil movimento interno do ser
Quando sentimos um leve deslocamento
de um iceberg dentro de nós
Esse movimento tectônico
É saber viver junto
Como também saber morrer – sozinho.“
(Cao Guimarães.)
Sem meu moleskine perdido, fico um pouco órfã andando sozinha. Desejaria escrever umas notas mas o coração fica apertado de pensar que todas as dos últimos três meses se perderam por aí. O caderno deve estar num limbo aonde meu biquíni azul marinho novo deve ter ido, lá onde dizem residir isqueiros e canetas bic.
Caminhar sozinha por uma cidade estranha dá a sensação de que o tempo é muito maior do que me parece todos os dias. Dou voltas me perdendo, reconheço o Capitães de Areia da adolescência entre uma espiada na procissão que se organiza em homenagem ao São Benedito, o Santo do dia, no meio do dourado de uma dentre as tantas igrejas na ladeira.
Estar só e sem precisar atentar à chamada do celular, alegria com ponto de exclamação. Olhando o mar, no ritmo da Bahia, já com três colares de contas coloridas na bolsa, me dá saudade de quem tem marido, é engraçado pensar nessa minha nova condição. Uma vontade de não ter mais tempo livre só para mim, de querer dividir todos os possíveis com ele.
Pego mais um ônibus dos muitos do itinerário e salto numa sala onde todos os quadros são pisos ou pelo menos me parecem assim. Sou a primeira a entrar no museu com vista para o horizonte infinito. O chão é de tábua corrida, o céu lá fora, repito, é muito azul e o mar agora está transparente.
A escada de madeira, retorcida, me conduz ao pranto. Perco o fôlego de ver o que realmente me importa no mundo, de perceber nas paredes os meus questionamentos de cada segundo em que me permito desacelerar e questionar.
Tenho vontade de rodopiar entre aqueles quadros só meus por um instante, dar piruetas de bailarina sozinha como quem ouve música alta. Fico parada, quanto me basta aquilo de só pensar.
Deparo com uns inscritos despretenciosos, de tina preta, letra de fôrma, na parede branca em frente à segunda igreja do caminho que resolvi tomar novamente.
„Estamos juntos
Condenados a morrer – sozinhos.
Viver junto é um sutil movimento interno do ser
Quando sentimos um leve deslocamento
de um iceberg dentro de nós
Esse movimento tectônico
É saber viver junto
Como também saber morrer – sozinho.“
(Cao Guimarães.)
sexta-feira, março 14, 2008
mais uma noite apenas
Bebeu metade do copo 300ml de chopp de um só gole, com a sede de quem procura a garrafa d`água ao lado da cama ao acordar. Apoiou-o com força, chamou o garçom de mestre acenando enquanto levantava meia bunda da cadeira pra ter a certeza de que tinha sido notado. Rodou um lápis entre os dedos e começou a cortar o ar incômodo, inflado de Nelson Rodrigues, Manifesto Antropofágico, Persépolis, filme daqueles quadrinhos, do novo do Michel Moore, esse cara é um saco. Acendeu o cigarrillo que de tão metido se escreve com dois elles, e começoua narrar devagar, para quebrar o ritmo da cnversa, uma história de quando vestiu um roupão de seda e fumou charuto para ir a uma festa à fantasia num casarão abandonado nos idos de...
Eu ouvia esperando a chuva passar. Esqueci de dizer que lá fora chovia cântaros, os bueiros pareciam brinquedo público, em cinco minutos as tampas rolavam pelas ruas alagadas. Era por isso que eu estava ali, naquela mesa de bar numa madrugada cansada, de quinta-feira, fim da semana da pessoa não acostumada ao ritmo corporativo. Fitava meu amigo em frente esperando condições de sair e pegar um táxi por mais dura que estivesse. Não conseguia me concentrar em nenhuma conversa, olhava em volta para ver quem estava por ali enquanto falavam e dava amostras da minha desconcentração até que a chuva me deu uma chance de voltar para a tranquilidade da vida em casa, só com ele, por quem espero longas horas todos os dias até encontrá-lo à noite. E foi só isso, nada de clímax.
Eu ouvia esperando a chuva passar. Esqueci de dizer que lá fora chovia cântaros, os bueiros pareciam brinquedo público, em cinco minutos as tampas rolavam pelas ruas alagadas. Era por isso que eu estava ali, naquela mesa de bar numa madrugada cansada, de quinta-feira, fim da semana da pessoa não acostumada ao ritmo corporativo. Fitava meu amigo em frente esperando condições de sair e pegar um táxi por mais dura que estivesse. Não conseguia me concentrar em nenhuma conversa, olhava em volta para ver quem estava por ali enquanto falavam e dava amostras da minha desconcentração até que a chuva me deu uma chance de voltar para a tranquilidade da vida em casa, só com ele, por quem espero longas horas todos os dias até encontrá-lo à noite. E foi só isso, nada de clímax.
quarta-feira, dezembro 26, 2007
pequeno desvario de fim de ano.
"E, no entanto, ele morreu, sem ter entrado na terra prometida."
(Ulisses, J. Joyce, pág.161)
www.alhuresenenhures.blogspot.com me amaldiçoou e no fim do ano não dá para brincar. (Na verdade tudo desculpa, eu gostei da brincadeira inútil)
As regras:
1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.
repassando: Julia W., Bebel, Julia N., Diogo R. e Bruno P. Recado dado, divirtam-se!
(Ulisses, J. Joyce, pág.161)
www.alhuresenenhures.blogspot.com me amaldiçoou e no fim do ano não dá para brincar. (Na verdade tudo desculpa, eu gostei da brincadeira inútil)
As regras:
1 - procurar um livro próximo;
2 - abri-lo na página 161;
3 - procurar a quinta frase completa;
4 - postá-la no seu blog;
5 - não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6 - repassar a outros cinco blogs.
repassando: Julia W., Bebel, Julia N., Diogo R. e Bruno P. Recado dado, divirtam-se!
domingo, dezembro 02, 2007
Só nikof
Os ombros carregados, encolhidos porque pesados, tensos. Passou em frente à padaria com cheiro de pão fresco, arregalou os olhos famintos para a vitrine, mas sovina seguiu adiante. O sentimento do peso nos ombros era o mesmo do gosto ruim na boca, só que em outra forma física.
Andava com casacos puídos, às vezes gostaria de ter novos mas não havia espaço para pensar nisso naquele momento. As coisas tolas tornavam-se ainda mais insignificantes no vazio absoluto. Queria um banho, um conhaque, coisas que aquecem o corpo e talvez fizessem com que os ombros abaixassem um pouco.
Era esse o tudo em que conseguia pensar. Nos próximos minutos. Não havia a possibilidade de encasquetar de pensar no futuro. Futuro é coisa de rico. Nas próximas horas procuraria tomar um banho quente, deitar e ler um pouco se calhasse de concentrar.
Tentava voltar à rotina, o coração não permitia. Não parava de falar-lhe para tomar uma atitude, drástica que fosse. Os carros passavam, as motos também. No fim da rua continuava a aparecer um pouquinho de céu, como todos os dias antes que resolvessem contruir mais um prédio ali que então taparia o restinho de horizonte.
Pela manhã o despertador tocou no mesmo horário, oito e trinta. De novo não levantou. Só abriu os olhos e fitou o teto com as mãos em cruz sobre o peito. Ficou um tempão nesta posição pensando, claro. Desejava que fosse mais fácil transformar pensamento em ação, mas preferia dormir mais. Continuar assim era melhor do que piorar afinal.
Fez um chá porque café fazia mal, diziam. E também dava mais trabalho. Não tinha biscoitos. Colocou Janis Joplin para tocar bem alto. Ela era boa porque era desesperada e independente como ele queria ser. Quem via, pensava (que ele era). Independente é tão diferente de sozinho no mundo. A solidão dele era tanta que tomava conta do outro. Só, o outro caminhava afastado, fora dali, engolido por ela. Nada de andar de mãos dadas.
Ele queria andar de mãos dadas. Era isso.
Andava com casacos puídos, às vezes gostaria de ter novos mas não havia espaço para pensar nisso naquele momento. As coisas tolas tornavam-se ainda mais insignificantes no vazio absoluto. Queria um banho, um conhaque, coisas que aquecem o corpo e talvez fizessem com que os ombros abaixassem um pouco.
Era esse o tudo em que conseguia pensar. Nos próximos minutos. Não havia a possibilidade de encasquetar de pensar no futuro. Futuro é coisa de rico. Nas próximas horas procuraria tomar um banho quente, deitar e ler um pouco se calhasse de concentrar.
Tentava voltar à rotina, o coração não permitia. Não parava de falar-lhe para tomar uma atitude, drástica que fosse. Os carros passavam, as motos também. No fim da rua continuava a aparecer um pouquinho de céu, como todos os dias antes que resolvessem contruir mais um prédio ali que então taparia o restinho de horizonte.
Pela manhã o despertador tocou no mesmo horário, oito e trinta. De novo não levantou. Só abriu os olhos e fitou o teto com as mãos em cruz sobre o peito. Ficou um tempão nesta posição pensando, claro. Desejava que fosse mais fácil transformar pensamento em ação, mas preferia dormir mais. Continuar assim era melhor do que piorar afinal.
Fez um chá porque café fazia mal, diziam. E também dava mais trabalho. Não tinha biscoitos. Colocou Janis Joplin para tocar bem alto. Ela era boa porque era desesperada e independente como ele queria ser. Quem via, pensava (que ele era). Independente é tão diferente de sozinho no mundo. A solidão dele era tanta que tomava conta do outro. Só, o outro caminhava afastado, fora dali, engolido por ela. Nada de andar de mãos dadas.
Ele queria andar de mãos dadas. Era isso.
segunda-feira, novembro 12, 2007
Morna, a Trapezista
Tinha a trapezista, a casa, dez graus à noite, saídas todas as manhãs para comprar pão fresco, Miles Davis e seus amigos improvisando no fundo. Todo dia era acordar cedo para ir à padaria, tomar banho (em seguida) ouvindo música; fazia questão de demorar-se debaixo d`água. Juntava as roupas para o ensaio numa mochila escolhida a dedo por ser prática e bonita.
Ensaiava duro todo o dia, tentava a cada vez esticar a ponta do dedo mais alongada ainda, curvatura de bailarina – na infância ela não dançou, por isso obrigava-se a treinar os pés tanto quanto os braços, que eram o instrumento para sustentá-la no ar. Tinha tanto carinho pelos membros superiores quanto pelos inferiores, diferente dos outros trapezistas que ligavam para as estripolias no ar mas esqueciam do acabamento final.
Vésperas de fim-de-semana, quando o circo ganhava limpeza, bolas de gás coloridas, vendedor de algodão doce, permitia-se sair à noite para tomar um vinho, relaxar a cabeça para voar mais leve no dia seguinte.
Era assim sempre, há mais de um ano quando o circo se estabeleceu numa única cidade e ela podia ter móveis seus pela primeira vez, conversar com o dono da padaria, ser reconhecida no bar da esquina, ganhar um sorriso cúmplice na locadora de vídeo. Pormenores urbanos que passavam despercebidos para a maioria. Para ela eram mais felicidade.
A rotina ela não seguia somente, aproveitava. Desenvolvia manias únicas de quem vive sozinho e ria de si mesma ao flagrá-las.
Estava assim, tudo bem, a trapezista achando que estava feliz na vida vidinha de minuto após o outro. Apesar da simplicidade aparente, tinha sonhos, vontades de conquistas.
Um dia ela e a bicicleta saíram para ir ao ensaio, mochila nas costas. Esse dia saiu até levemente maquiada mesmo àquela hora da manhã, passou batom e blush para disfarçar a palidez pela falta de sol. Pegou o mesmo caminho de sempre, rua principal, à direita na esquina do simpático vendedor de hot dog, reto até a curva na rua esquisita que só tinha prédio de vidro. Pretendia seguir adiante, mas não conseguiu não parar ao se deparar com uma árvore repleta de lírios cheirosos e folhas verdes. Parou para tocá-la e analisar melhor o milagre praquela época fria do ano. Acariciou o tronco, tirou umas duas flores do galho sentindo-se no direito de ter um pouco da beleza consigo – não sabe mais ao certo se foram duas ou três, a exatidão dos fatos está embaralhada - tinham tantas! Fez foto com o celular da surpresa na paisagem. Nos três dias seguintes só pensava na árvore, chegou a fazer o caminho de volta na contramão para passar em frente depois do circo. Contou a descoberta que de primeiro ela optara por guardar em segredo a dois amigos, eles mereciam saber do motivo do sorriso com olhinhos brilhantes.
No quarto dia, ao virar a curva para rua esquisita, foi surpreendida por um trânsito enorme, carros buzinando tomando todo o espaço até o outro lado da rua, o da árvore. Motoristas tão impacientes que nem notaram a beleza e o cheiro da natureza em meio ao concreto. Ela tentava espiar as pétalas brancas, exuberantes, quase dizia em voz alta “me espera que estou chegando aí”. Procurava uma brecha entre um carro e outro, era realmente intransponível, não havia espaço para ciclista ali. Um motorista abriu de repente a porta do carro para gritar raivoso algum xingamento ao guarda de trânsito que inutilmente tentava organizar o caos e atingiu a bicicleta, ela ralou o joelho. A roda entortou.
Saiu sangrando sem se importar com a dor, a roupa suja, o frio, a bicicleta. Doía mesmo era saber que não chegaria ao outro lado mais. Depois de tantos incidentes que ela via pelo caminho, não deixariam a árvore sair ilesa do caos urbano, ela não sobreviveria. Do posto médico próximo ela descobriu uma nova rota para chegar até o circo, lugar de onde ela nunca deveria ter resolvido se mudar, pensou, de um colorido artificial mas que está sempre ali, mesmo estando em qualquer parte.
No novo atalho as ruas eram largas com o caminho da ciclovia bem delineado, era mais seguro de andar por ali, mas não tinha a mesma graça, faltava o vendedor de hot dog na esquina e toda a beleza que ela via quando ia pelo outro lado. Resignou-se a tomar o trajeto recomendado, nada de ousar em busca de outras paisagens mais, acabava que chegava atrasada ao ensaio toda vez. Agora ela não levava bronca por atrasos mais mas também não conseguia fazer uma ponta de pé tão curvada que arrancava suspiros dos mais atentos da platéia. Quem liga? O circo é para criança mesmo e criança nem nota pequenas coisas como essa.
Ensaiava duro todo o dia, tentava a cada vez esticar a ponta do dedo mais alongada ainda, curvatura de bailarina – na infância ela não dançou, por isso obrigava-se a treinar os pés tanto quanto os braços, que eram o instrumento para sustentá-la no ar. Tinha tanto carinho pelos membros superiores quanto pelos inferiores, diferente dos outros trapezistas que ligavam para as estripolias no ar mas esqueciam do acabamento final.
Vésperas de fim-de-semana, quando o circo ganhava limpeza, bolas de gás coloridas, vendedor de algodão doce, permitia-se sair à noite para tomar um vinho, relaxar a cabeça para voar mais leve no dia seguinte.
Era assim sempre, há mais de um ano quando o circo se estabeleceu numa única cidade e ela podia ter móveis seus pela primeira vez, conversar com o dono da padaria, ser reconhecida no bar da esquina, ganhar um sorriso cúmplice na locadora de vídeo. Pormenores urbanos que passavam despercebidos para a maioria. Para ela eram mais felicidade.
A rotina ela não seguia somente, aproveitava. Desenvolvia manias únicas de quem vive sozinho e ria de si mesma ao flagrá-las.
Estava assim, tudo bem, a trapezista achando que estava feliz na vida vidinha de minuto após o outro. Apesar da simplicidade aparente, tinha sonhos, vontades de conquistas.
Um dia ela e a bicicleta saíram para ir ao ensaio, mochila nas costas. Esse dia saiu até levemente maquiada mesmo àquela hora da manhã, passou batom e blush para disfarçar a palidez pela falta de sol. Pegou o mesmo caminho de sempre, rua principal, à direita na esquina do simpático vendedor de hot dog, reto até a curva na rua esquisita que só tinha prédio de vidro. Pretendia seguir adiante, mas não conseguiu não parar ao se deparar com uma árvore repleta de lírios cheirosos e folhas verdes. Parou para tocá-la e analisar melhor o milagre praquela época fria do ano. Acariciou o tronco, tirou umas duas flores do galho sentindo-se no direito de ter um pouco da beleza consigo – não sabe mais ao certo se foram duas ou três, a exatidão dos fatos está embaralhada - tinham tantas! Fez foto com o celular da surpresa na paisagem. Nos três dias seguintes só pensava na árvore, chegou a fazer o caminho de volta na contramão para passar em frente depois do circo. Contou a descoberta que de primeiro ela optara por guardar em segredo a dois amigos, eles mereciam saber do motivo do sorriso com olhinhos brilhantes.
No quarto dia, ao virar a curva para rua esquisita, foi surpreendida por um trânsito enorme, carros buzinando tomando todo o espaço até o outro lado da rua, o da árvore. Motoristas tão impacientes que nem notaram a beleza e o cheiro da natureza em meio ao concreto. Ela tentava espiar as pétalas brancas, exuberantes, quase dizia em voz alta “me espera que estou chegando aí”. Procurava uma brecha entre um carro e outro, era realmente intransponível, não havia espaço para ciclista ali. Um motorista abriu de repente a porta do carro para gritar raivoso algum xingamento ao guarda de trânsito que inutilmente tentava organizar o caos e atingiu a bicicleta, ela ralou o joelho. A roda entortou.
Saiu sangrando sem se importar com a dor, a roupa suja, o frio, a bicicleta. Doía mesmo era saber que não chegaria ao outro lado mais. Depois de tantos incidentes que ela via pelo caminho, não deixariam a árvore sair ilesa do caos urbano, ela não sobreviveria. Do posto médico próximo ela descobriu uma nova rota para chegar até o circo, lugar de onde ela nunca deveria ter resolvido se mudar, pensou, de um colorido artificial mas que está sempre ali, mesmo estando em qualquer parte.
No novo atalho as ruas eram largas com o caminho da ciclovia bem delineado, era mais seguro de andar por ali, mas não tinha a mesma graça, faltava o vendedor de hot dog na esquina e toda a beleza que ela via quando ia pelo outro lado. Resignou-se a tomar o trajeto recomendado, nada de ousar em busca de outras paisagens mais, acabava que chegava atrasada ao ensaio toda vez. Agora ela não levava bronca por atrasos mais mas também não conseguia fazer uma ponta de pé tão curvada que arrancava suspiros dos mais atentos da platéia. Quem liga? O circo é para criança mesmo e criança nem nota pequenas coisas como essa.
sábado, outubro 06, 2007
terça-feira, outubro 02, 2007
Dupla insensatez
Saber que seu coracao fica do tamanho de um botao de rosas impedido de crescer por falta d`água quando você ouve minhas palavras me dói tao duro que é melhor me calar.
Calada me culpo por nao alertar o que para mim é tao nítido e para você obscuro numa ordem centesimal.
Você, um anjo de lábios rosados, olhos azuis e o cabelo de qualquer jeito, cada hora um. As bochechas grandes e macias como as minhas, dá vontade de apertar e botar para ninar. Embalar você com cancao didática, tentando te mostrar o caminho mesmo sem saber para que lado eu mesma devo seguir na encruzilhada. Parece que já estive perdida mais vezes e isso me garante seguranca para te dizer que curva virar.
Uma vontade de explicar o inexplicável; de solucionar mistérios; aprender matémática que eu nunca soube para te provar com razao incontestável. Depois pegar na sua mao macia, você sempre teve maos macias e cuidadas de creme, sair por aí para descobrir mais um canto, mais uma cidade perdida como nós ou até mais encontrada do que nós neste planeta imenso que percebemos a cada dia menor.
Tenho um amor por você maior do que por mim, minha irma querida. Troco a minha felicidade pela sua e se te puxo é porque tem um buraco na calcada que eu vi primeiro.
Calada me culpo por nao alertar o que para mim é tao nítido e para você obscuro numa ordem centesimal.
Você, um anjo de lábios rosados, olhos azuis e o cabelo de qualquer jeito, cada hora um. As bochechas grandes e macias como as minhas, dá vontade de apertar e botar para ninar. Embalar você com cancao didática, tentando te mostrar o caminho mesmo sem saber para que lado eu mesma devo seguir na encruzilhada. Parece que já estive perdida mais vezes e isso me garante seguranca para te dizer que curva virar.
Uma vontade de explicar o inexplicável; de solucionar mistérios; aprender matémática que eu nunca soube para te provar com razao incontestável. Depois pegar na sua mao macia, você sempre teve maos macias e cuidadas de creme, sair por aí para descobrir mais um canto, mais uma cidade perdida como nós ou até mais encontrada do que nós neste planeta imenso que percebemos a cada dia menor.
Tenho um amor por você maior do que por mim, minha irma querida. Troco a minha felicidade pela sua e se te puxo é porque tem um buraco na calcada que eu vi primeiro.
terça-feira, setembro 11, 2007
Onde andará...?
Peguei e li de uma tacada só. Porque para nao dizer que foi na primeira, na segunda página havia sinais de que aquilo era para mim. Além disso o moco da biblioteca liberou mais uns diazinhos depois do período de entrega previsto, outro sinal.
Voltei com ele pelo metrô. Parecia um livro sério, capa preta de couro sem nada escrito, um couro gasto. As bordas vermelhas de pano arrematavam o negro. Abrindo via-se que era uma capa falsa, só protecao. A verdadeira era colorida, estampada e feita de papel frágil como a pseudo-protagonista daquela história e de tantas outras de que gostava - sempre de seres à margem e conflituosos.
Em busca de uma outra vida, "Nao quero nada disso que vejo em volta, eu quero encontrar outra coisa", ela dizia e parecia que eu falava com o espelho.
Voltei com ele pelo metrô. Parecia um livro sério, capa preta de couro sem nada escrito, um couro gasto. As bordas vermelhas de pano arrematavam o negro. Abrindo via-se que era uma capa falsa, só protecao. A verdadeira era colorida, estampada e feita de papel frágil como a pseudo-protagonista daquela história e de tantas outras de que gostava - sempre de seres à margem e conflituosos.
Em busca de uma outra vida, "Nao quero nada disso que vejo em volta, eu quero encontrar outra coisa", ela dizia e parecia que eu falava com o espelho.
segunda-feira, setembro 03, 2007
on a bike
Descia a Kastanienalle de bicicleta ouvindo "walk down Portobello Road through the sound of reggae".
Ai meu filho, nao dava para estacionar um pouco mais para dentro e tirar o rabo do caminho?
Pânico de esmagamento entre carro e trilhos. Melhor entrar à direita e descer pela rua paralela, mais seguro e a ladeira é mais íngreme, mais gostoso.
Ai meu querido, tinha que parar no meio da rua? Demais, demais.
Ih! Aquele lugar onde a gente sentou um dia e tomou vinho até nao mais poder. No fim juntamos todas nossas moedas e deu uns três euros e cinqüenta, qualquer coisa assim. A garconete engatou num discurso desaprovador e nós parados olhando para ela balbuciando: mas nao era para dar QUANTO A GENTE QUISESSE? Acreditamos na filosofia da casa. Ela continuou esbravejando até a gente dar as costas.
Sentei num café, vou descansar para subir o morro de novo. Outro dia que reparei que meu bairro carrega o morro no nome. Prenzlauer Berg.
...
No café
Estive pensando em outras coisas, outros assuntos que têm relacao indireta com subir e descer o morro de Prenzlauer Berg. Sobre como é bom se comunicar em outras línguas, sobre como a traducao de expressoes idiomáticas soa poesia. De como a reuniao de diferentes culturas, o confrontamento com outros paradigmas é rico. Parece balela mas nao é nao.
Ai meu filho, nao dava para estacionar um pouco mais para dentro e tirar o rabo do caminho?
Pânico de esmagamento entre carro e trilhos. Melhor entrar à direita e descer pela rua paralela, mais seguro e a ladeira é mais íngreme, mais gostoso.
Ai meu querido, tinha que parar no meio da rua? Demais, demais.
Ih! Aquele lugar onde a gente sentou um dia e tomou vinho até nao mais poder. No fim juntamos todas nossas moedas e deu uns três euros e cinqüenta, qualquer coisa assim. A garconete engatou num discurso desaprovador e nós parados olhando para ela balbuciando: mas nao era para dar QUANTO A GENTE QUISESSE? Acreditamos na filosofia da casa. Ela continuou esbravejando até a gente dar as costas.
Sentei num café, vou descansar para subir o morro de novo. Outro dia que reparei que meu bairro carrega o morro no nome. Prenzlauer Berg.
...
No café
Estive pensando em outras coisas, outros assuntos que têm relacao indireta com subir e descer o morro de Prenzlauer Berg. Sobre como é bom se comunicar em outras línguas, sobre como a traducao de expressoes idiomáticas soa poesia. De como a reuniao de diferentes culturas, o confrontamento com outros paradigmas é rico. Parece balela mas nao é nao.
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