domingo, julho 01, 2007

pra descontrair

(sem tempo dá em imagem - condensa melhor)


na noite

segunda-feira, junho 25, 2007

terça-feira, junho 19, 2007

entre uma obra e outra

Saudades de cuidar e ser cuidada.
Vontade de cuidar e ser cuidada de novo.
E que me chamem para descansar as pernas e nao me deixem escrever de pé.

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O verde tao verde do gramado me convidava para sentar com ele. Geralmente é assim, eu finjo que nao estou sozinha para nao enlouquecer. (Mais uma primavera passa.)
Nao páro de pensar em você e agora resolvi contar ou viver mais essa decepcao profunda. Sinto-me absolutamente preparada para sofrer. Dá até uma certa alegria vinda do alívio da certeza de você nao me querer.

(ouvindo Edith Piáf demais)

quinta-feira, junho 14, 2007

direto da sala de imprensa (em 5 minutos)

Onze e meia da manha o encontro de duas mochileiras que se olham e enxergam o coração uma da outra independente da cultura. Viajantes se reconhecendo.

O acaso programado do encontro foi em frente ao „Morena Bar“, perto da estacao Görlitzer Bahnhof. Ali as duas esperavam inquietas a carona que as levaria ao destino planejado: Kassel no estado de Hessen.

Dois minutos de conversa, uma descobre que a outra mora na cidade-destino. A uma, eu, indo a trabalho cobrir a Documenta – evento que ocorre na pacata cidade de prédios pontiagudos a cada cinco anos desde 1955.

Onde você vai ficar? Pois é, eis uma questão, os hotéis estao todos lotados. Ist ja Krass, echt? In so einer lengweiligen Stadt? Ja, ja. Ich habe eine Wohnung gemietet aber außerhalb, na ja...

Conversa vai, conversa vem. Nao muita. Em um minuto inesperadamente espontâneo, a alemã pegava meu telefone e ligava para o irmão, morador de uma república que teria um quarto livre. Tudo acertado em menos de cinco minutos e eu tinha uma casa para ficar. Ao telefone ela disse que eu era uma junge Frau que ela acabara de conhecer mas que parecia extremamente confiável.

Pelas tantas, já dentro do carro guiado por Laurenz, o motorista que contactamos pelo site de caronas e quem acabamos as duas conhecendo e gostando, descobrimos que tínhamos o mesmo nome: Ana. O dela certamente com dois enes; diferença cultural pouca. Pelas tantas e meia descobrimos que o Ana dela era Anna Louise. Era coincidência demais. Nao intento entrar pela auto-ajuda porque tenho vocação assumida para um drama. Porém a mim parece inegável essa energia circulante do universo que pode ser Deus ou apenas a tal da forca superior que manda uns bons fluidos necessários depois do período de paúra. Anna Louise – minha versão germânica – me arrumou lugar para ficar numa república de quatro. Achei que encontraria um muquifo. Que nada! O melhor prédio de Kassel visto até agora. No topo de uma ladeira, vista para as cúpulas dos prédios reconstruídos depois da segunda guerra. De graça. Depois dizem que alemão é frio. É frio mas dá carona para qualquer um porque todo mundo é honesto e ninguém tem medo de ser assaltado. É frio mas dá um canto para qualquer um dormir. Houve muitas sintonias – inclusive a data de aniversário – mas eu continuo sendo uma estranha para minha xará versão kasseliana.

Retiro tudo o que disse – ou que pensei – sobre a falta de solidariedade no primeiro mundo, é uma solidariedade talvez maior ainda mas institucionalizada (por sites de carona, SMSs).

Depois de tudo isso esculturas belíssimas, vídeo-projeções surpreendentes, pinturas impressionantes, performances de cair o queixo. Seguidos de coquetel liberado para imprensa com conversinhas com o povo local – muito mais aberto do que o berlinense. Senti-me mais próxima a todos, coisa de província. Faltou pouco pra ser o Rio.

Mais sobre a Documenta em si no próximo post.

domingo, junho 03, 2007

um balde de café

Eu ia dizer, mas ele disse bonito e antes de mim. Parece até que ele conversava comigo.

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa, 2-8-1933.

quinta-feira, maio 24, 2007

O homem quase nu

Fazia um calor de 30 graus que normalmente consideraria médio, mas para quem passara um longo período de graus negativos, era quente à beca. O sol entrando pela janela ainda sem cortina do apartamento novo despertou-me dez minutos antes do despertador. Querendo aproveitar ao máximo o tempo disponível para o sono - cada vez mais escasso - estava enrolando para levantar quando a campainha tocou. Em princípio pensei que fosse minha room-mate que nao dormira em casa. Levantei quase puta por ter de enfim estar de pé e deixar aqueles preciosos a essa altura oito minutos de sono.

Arrastei-me até a porta com minha camisa do Mickey cinza que meu pai usava quando eu era pequena e que mais tarde roubei do armário dele. Por algum motivo a camiseta continuava entre minhas roupas e eu a usava sempre pra dormir. Sem sutia e trajando ainda uma calca larga de flanela azul, cabelos arrepiados e remelas nos olhos, abri a porta pronta para xingar a pobre da minha companheira de apartamento.

Era o vizinho de cima. Oito e vinte da manha. Hallo! Susto.

Sören em seu short de pijamas e chinelos que poderiam ser havaianas me olha remelenta, se desculpa dizendo que saiu para comprar pao e quando voltou a porta tinha batido, "meu deus, isso nunca aconteceu comigo, desculpe ter te acordado, mas eu preciso ligar para um chaveiro, algo assim. Já procurei o zelador do prédio para saber se ele tem uma chave reserva, mas ele sumiu e eu tô aqui meio sem saber o que fazer."

"Imagina, Sören, entra aí, toma um café. Listas amarelas nao tenho nao, mas você pode usar a internet". A porta do quarto se abre, um sutia jogado no chao recepciona a visita. Par de jeans ao avesso em cima da cadeira da escrivaninha para onde ele se encaminhou. No cinzeiro da cabeceira, a ponta do beck da noite anterior. "Liga nao Sören, fique à vontade."

Em seu shortinho samba-cancao, ele procura o número de um chaveiro no google. Eu me tranquei no banheiro para pelo menos lavar o rosto e colocar uma blusa com sutia antes de encarar a pia de louca a fazer o tal do café.

Ouvimos passos na escada e ele saiu apressado para ver quem era. Era ele, o zelador. Senhor zelador quase ganhou um beijo na boca de um magrelo sem camisa quando disse que tinha uma chave reserva de cada apartamento. Economia de 60 euros e de constrangimentos outros.

Agora estou procurando O homem Nu do Sabino em alemao para presentear o vizinho. Será possível?

terça-feira, maio 15, 2007

Encontros

Um pouco do fim de semana no blogue da Cecília Giannetti que está deixando Berlim depois de um mês aqui em missao.

segunda-feira, maio 14, 2007

Por enquanto quieta

Distraída pra morte, eu estava sim. Olhava estrelas em ambiente fechado. Você falava, eu mantinha o olhar fixo num ponto qualquer e ficava desconcertada quando percebia que sua frase acabara e que eu nada ouvira. O pior era quando eu começava a falar e de repente me perdia entre as minhas próprias palavras atenta à conversa da mesa ao lado. Era tanto tempo de enclausuramento deixando a vida de lado que num encontro desses nao sabia como me comportar. Voltei pra casa com um vazio no peito, me sentindo superficial e provinciana em contraponto ao meu querer ser cidadã do mundo e colorida.

Acordei receosa dos momentos de falar sem fim que também houvera na noite anterior, como se todas as falas economizadas na solidão do quarto tivessem resolvido cair na pista. Desacostumadas, escorregavam e iam por caminhos conhecidos ao invés de arriscarem novas paisagens.

Nao queria mais aquelas palavras, queria outras. Sabia que surgiriam, renovavam-se à medida em que o tempo passava. Pareciam andar na direção contraria a ele. Quanto mais tempo num lugar, palavras novas nascidas da estabilidade. Era só uma questão de paciência.

sábado, abril 28, 2007

De mudança

Acordei pensando em como o dono de um restaurantezinho qualquer dentre os milhares da cidade podia ter um Mercedes-Benz zero quilômetro. E também em como os árabes são simpáticos e esquisitos. Veja que não param de me dizer que querem me ver dançar que nem as brasileiras. Tento explicar que não sou assim tão típica. Ao que eles rebatem que não é possível, só oito meses de Alemanha e já quer dizer que é alemã? Não há por que me esforçar em explicar que não é nada disso, apenas não rola de sair sambando por aí. Deixa estar.

O céu azul e sol me convidam para sair, quase me obrigam. Da varanda olho as chinelas, blusas de alça, os vestidos e as folhas das árvores verdinhas, algumas com flores, nem sinal de galho. Delícia seria lagartixar num café mas a minha volta é dominada por caixas de papelão e um sem número de quinquilharias alfinetando a mente. Como pude acumular tanta coisa em tão pouco tempo? Pensar em levar metade que seja pro Brasil está fora de cogitação. Tento aceitar a vida nômade que acho que vai ser a minha, mas às vezes é difícil se livrar de coisas que julguei por um bom tempo de tanto valor. Livros, levo todos. Revistas ficam. Justo elas que me serviram de bússola quando estava perdida numa cidade nova. Elas ficam. Roupas, levo todas também, há que se dar um jeito, cansei de me desfazer. Só de lembrar da calca jeans novinha que me custou os olhos da cara e simplesmente dei para uma espanhola gente fina nas andanças por aí, arrepio. Nunca mais encontrei uma calca jeans que eu amasse tanto. Daí criei essa aversão a largar coisas, mas passa – não tem outro jeito. Nas prateleiras, nos manequins, só se vêem skinnys. Eu nao gosto de skinnys. Nem de sutiã com enchimento e arame. Não que eu nutra qualquer orgulho disso, mas não tenho perna fina e nem a menor vontade de ter peitão, o que dificulta muito. Calcinha então, esquece, mamãe compra em Ipanema e manda. Não me julgo nem um pouco mimada e tenho essas frescuras, imagino como as meninas mal-acostumadas fazem em terra estrangeira.

A mudança em questão parece posta no destino como um tira-gosto pra volta à terra mãe. Na verdade só mudo de quarteirão, ganho uma banheira e uma varanda maior. O resto continua quase igual, exceto pela alegria extra de juntar mais quinquilharias para encher o chão de tábua corrida. Eu num mercado de pulgas por essas épocas sou que nem pinto no lixo. Os turcos que vendem panelas quando me vêem saem até correndo, lá vem a moça chata que gosta de pedir desconto.

Volto a pensar nos árabes. Tantos imigrantes que fico confusa. Os adolescentes alemães adoram fumar narguilê nos bares deles. Só andam em bando, como em qualquer lugar do mundo. Reclamam que o fumo não está bom como se fossem os maiores especialistas no assunto, riem alto e só pedem uma cerveja. Como qualquer indivíduo na Germânia, são pão duros.

As caixas ainda me olham reprovativamente, invento mil afazeres para não encaixotar. Mistura de preguiça e sensação de perda de tempo que me dá arrumar tudo para depois desarrumar. É hora de encará-las.

sábado, abril 21, 2007

E Gol? *

A bola no meio do campo e ninguém chuta. Uns goles como empurraozinho, ela se aproxima da linha branca riscada no verde do gramado. Equilibra-se em cima dela sem cair. Até que ele ouve o apito, chuta a bola e inicia-se o jogo. Corre para o ataque, ela fica na defensiva, escorrega e mesmo na zaga resolve cavar seu próprio gol.
Dribles, passadas de bolas, baloezinhos, bicicletas na trave, no fim, empate.
Os preparativos para a próxima partida sao intensos, os jogadores querem revanche.
Ansiosos, eles demonstram calma ao adversário.
A bola está no campo alheio, deixa que é a vez dele chutar.
Já é fim do primeiro tempo, os jogadores cansados e nervosos, nao sabem o que fazer para terminar bem a partida.

* homenagem às metáforas futebolísticas de Carolina Salomao

domingo, abril 15, 2007

viva o sol

Colo vermelho, sensacao de ardência no rosto, dedinhos dos pés à mostra, canelas ao ar livre, canga, grama, "she is beautiful" com céu azul de fundo, bicicleta holländer limpa e calibrada com gosto, lenco e óculos escuros novos, Berliner Pilsner a 1,50 gelada!, panelas coloridas ao preco que se quiser pagar, saudacoes rubro-negras ao gringo de havaianas, regata do Flamengo e canga do senhor do Bonfim, churrasco aqui, churrasco ali, fila para ir ao banheiro, falacao num tom mais alto, perrengue para achar um poste livre para estacionar a bike, suco de laranja "frisch gepresst", albaneses vendendo cadeados a preco de banana, listras verticais combinadas a listras horizontais de preferência de cores diferentes, cortes de cabelo assimétricos, pintura do muro renovada, cachorros soltos, criancas soltas, o verao chegou no Mauer Park. É possível calor ao norte da linha do Equador!

quarta-feira, abril 04, 2007

quando as coisas ganharam vida

As bolsas da Taschen, as mochilas da Bree, os sapatinhos de boneca coloridos acordaram revoltos a provar o que sao: maus. Malvadíssimos, atacam e fazem da moca trapo caído a se arrastar como alguém que em vida é obrigado a encarar seus amigos se transformarem em inimigos.

A moca nao era de grandes sonhos, pensava no pao - que nao precisava ter gergelim ou ser integral - de amanha e em sair para falar umas besteiras com cerveja. Nao era especial, mas nao queria o mal de ninguém, queria só passear. Até ser atacada pelas coisas que imaginava sem vida.

Agarraram-na pelo pescoco, pela cintura, amarraram seus tornozelos e a deixaram parada, imóvel, esquecida no tempo e espaco a olhar o nada com uma única fresta de luz que entrava de uma só janela do porao vazio.

Ficou por anos naquela mesma posicao. Quando a encontraram e reportaram o seqüestro na TV nao tinha mais jeito, ela nao servia nem para as palavras cruzadas mais. Parada em frente à TV nao conseguia acompanhar a rápida sucessao de imagens que formavam a novela, confundia os personagens. Conseqüências do ataque.

segunda-feira, março 19, 2007

Resmungos e dicas

Eu já ia escrever sobre a felicidade que é ver alguns raios de sol sossegarem na esquina enquanto criancinhas animadas tomam sorvetes verdes, mas eis que hoje bateu uma febrinha, estou com duas meias, três casacos, aquecedor no 4, pijama de flanela e uma vontade enorme de reclamar do frio porque é muito pior ter febre no frio.
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Apesar da raivinha recente da apple causada pela enorme quantidade de plug-ins obscuros que tenho que instalar a cada surgimento de uma nova extensao de arquivo e também pelos serial numbers infernais de se acharem para o CS3, vou comprar um ipod colorido e fingir que sou feliz por aí.

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Tem-se dito que dar para desconhecidos depois de meio Red Label causa pulo súbito e assustado atrás do lap top em cima da escrivaninha no despertar. E que é melhor ter porta que fecha pelo lado de fora sem precisar da chave, macaneta das antigas, que gira. Preescreveram-se essas dicas.

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quinta-feira, março 01, 2007

mais uma da alice

Alice olhava as frestas de sol que apareciam e voltavam a sumir. Ao raiar de uma pequena iluminação que fosse, fixava o olhar naquela luz. Deixava bater-lhe nas vistas tentando buscar alegria em meio àquela mistura de tons de cinza, preto, marrom, bege que correm a cidade. O tempo lá fora da janela do trem, tudo passando e ela ali, nervosa também porque estava com o tíquete errado bem no começo do mês e os fiscais bateriam a qualquer momento, ela pressentia e se daria mal mesmo com todas as desculpas elaboradas na cabeça. Abria um livro para distrair, mas nao conseguia se concentrar, a nuvem negra a rodeava. Por causa dos tais dos fiscais ou sabe-se lá por quê. Ela persistia em busca da saída. Nome mais adequado com que batizaram essa menina que vivia a procurar caminhos mágicos que os espelhos nao ofereciam. Ah, por que nao ofereciam? As lágrimas são difíceis de se conter; ela encostava as mãos geladas do frio nas bochechas quando sentia que a temperatura do rosto ia aumentando. Os olhos começavam a encher de água, ela esboçava um sorriso, último artifício para espantar o choro. Chega uma hora que o corpo precisa pôr para fora todas aquelas dores, a sucessão de decepções. Nao adianta fugir porque nao tem para onde. O corpo fala pela mente, desconcertada, cansada. Apesar do esforço da menina Alice, o debulho, ali mesmo, dentro do trem, nao esperou nem a estação certa para cair. O jeito é saltar, respirar ar gelado, ela gosta de ar gelado. Anda, anda, mas acha desconfortável passear de olhos tão vermelhos e molhados. Vendem de tudo, mas um buraco, o que mais queria, nada. Desejava veemente seu travesseiro, mais que tudo. Tentava pensar em coisas bonitas, mas nao havia saída. Entrou na cabine telefônica. Discou o 0800, quem sabe alcançava alguém em casa, é bom falar com quem se tem intimidade. Depois do alô, o arrependimento. Por que perturbar as pessoas do outro lado do mundo com o seu desespero que nem causa concreta tem?
Nesse mundo quem nao tem objetivo concreto nao é compreendido. Objetivo subjetivo é visto como loucura. Por que morar em Berlim? Você tem que mandar dinheiro para a família? Nao, nao, nada disso, é que... e as lágrimas escorrem, pulam bem de manhã! Como explicar o que faz tão longe? Seria ridículo falar para assistente social que sai-se também em busca de experiências. Nem ela poderia explicar como alguém opta por sofrer, ela mesma nao esperava que atrelada a novas experiências viriam também muitos sentimentos fortes que ficam perdidos, correndo no sangue, subindo e descendo porque o coração nao sabe bem o que fazer com eles. Soubesse dessas emoções todas talvez... Talvez nada porque quando eles passam, viram ótimos sentimentos. È assim que se constituem as experiências, conclui. Ai, mas nao tinha jeitinho melhor? Tudo culpa da Narizinho que quando Alice tinha dez anos lhe contou que havia um reino no fundo do mar maravilhoso, onde tinha um caracol gente finíssima, com tantas histórias, valia a pena conhecê-lo. Se Narizinho conseguia fugir para volta e meia encontrar seu amigo, que beleza!, ela também podia. Nao só esse reino era alcancável, muitos outros também, era só tomar o tal do pó de pirlimpimpim. Alice queria esse pó agora, o coelho sumiu e levou seu chá! Como achá-lo para conhecer novo reino?
O coelho sumiu porque queria ensinar a Alice que nesse reino esquisito é bom estar concentrado no mais alto grau, nada de perder tempo em tardes de chá e bate-papo com ele.
Deixou Alice a ver bicicletas até que ela decida escolher uma para ela e saia a pedalar por aí sem errar o caminho. Prometeu aparecer qualquer dia.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

da sexualidade ultrapassada

Neste fim de semana, além da orgia gastronômica – até Apfle Strudel cozinhamos - fomos ao centro gay do mundo. Berlim deve ser uma das cidades mais gays do momento. Assim dizem os lonely planets e as minhas andanças por aí. Tinha uma festa. Dizia-se que da Berlinale. Era no Tempelhof, o aeroporto. A locação me atraiu, festa da Berlinale no aeroporto soava a muitos cineastas interessantíssimos do mundo todo, música boa, diversão garantida. Compramos uma vodka, misturamos com suco de limão e fingimos tomar caipirinha.
Na procura gelada pela festa, encontramos um policial que aqui são seres extremamente confiáveis. Moco, você sabe onde é a festa? O sujeito em seu casaco verde musgo, POLIZEI estampado nas costas, resolve nos guiar até o local. Simpático, ele explica que estava na pausa de trabalho.
- Vocês são de onde?
- Adivinha. (Adoro fazer esse suspense porque é divertidíssimo prepará-los para o espanto.)
- Espanha?
- Nao, beeemm mais longe. Brasil.
- Nossa! Mas o que vocês estão fazendo aqui? (as perguntas sempre são originais assim!)
- Ah, um monte de coisa.
...
- Você é vegetariana?
- Sou, por quê?
- Podemos marcar uma ida a um restaurante ótimo que eu conheço, o que você acha? Ah, também vou escoltar uma ida a um festival de cinema enorme na Espanha em maio, numa limousine, você quer ir comigo?
- Mas é claro! (ai, bêbado se anima com umas coisas!...)

A primeira furada da noite: cantada de policial. Pelo menos ele foi malandrinho e nos fez entrar pela porta da saída, nao pagamos um centavo, thank a pelo menos isso God! Lá dentro, festa lotada de gays atrás de drags, nas carrapetas: organic electro (sem agrotóxico!!!) com um hint of trip hop, experimental edge and humour. Nada mal, mas só com A LOT OF humour para bancar de hetero no Teddy QUEER film award.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Canções do exílio

Nada como uma visita a uma amiga para renovar a trilha sonora da vida. O manjado „Transa“, álbum de 1972 do Caetano veio parar aqui depois da passagem pela casa da Jô (J com som de i) em Köln. E nao saiu mais do cd-player da cozinha, onde dormia o „Universo ao meu Redor“ da Marisa Monte.
Este criou asas e foi correr o mundo. A Jô veio comigo pra Berlim porque até o fim de semana acontecia a Transmediale, um evento de arte tecnológica. Fizemos o percurso de carona. O motorista era estudante de teologia, tinha um piercing nas sombrancelhas, muito simpático. O cara do banco do carona era esquisito. Nao falava muito e me pareceu de lugar nenhum, mulato com cabelo e barba pichains mas naturalmente loiros. Um jeito mais alemão do que do alemão futuro pastor. Tanto faz também o quão intrigantes eram aquelas criaturas. O fato é que nao havia UM único cd no carro. Com a case renovada em mãos, espertamente resolvi aplicar música brasileira neles.
E o motorista se apaixonou pelo cd da Marisa Monte. Apresentei Céu, “Qualquer Coisa” do Caetano, Chico entre outros. Gamou no “Universo ao meu redor”. Comovida, dei o cd para ele, afinal o grande trabalho que terei, será o de queimar outro para mim. Um viva à pirataria.

domingo, janeiro 21, 2007

à flor da pele

Tento matar o tempo dentre essas quatro paredes
Hoje resolvi não sair de casa
O tempo está chuvoso, é frio lá fora
E sozinha com essa paisagem à janela não resisto ao vício

Disco o número de cor
Você atende com aquele sotaque que adoro
E já na primeira frase eu me derreto a imaginar você de bermudas e havaianas
andando na areia com sua garrafa d´água de dois litros

Me ponho a pensar em como se vestiria no calor
E acho graça.
Penso em te chamar para ir a um show comigo
Mas acho melhor não, seria muita audácia.
Eu podia inventar que ganhei um ingresso. Besteira!

Volto para nós de mãos dadas matando o tempo juntos
Debaixo do edredon quentinho.
Vejo-me lendo Schiller em voz alta de calcinha
num domingo igual a esse
Você caçoa do meu sotaque e me corrige.
Eu te ensino espanhol, o domingo vai terminando.

E eu te chamo para assistir a um filme.

quinta-feira, janeiro 18, 2007

.pelas ruas.


Um viva à diversidade sexual berlinense!

Saudades do sol do outono!... Prédio em Neukölln.

terça-feira, janeiro 16, 2007

E.T.

Na escrivaninha duas canecas coloridas daquelas que se ganham de brinde, uma cheia, outra vazia. Cappuccino em pó era o que resolvera experimentar na última ida ao supermercado.
Nao estava exatamente bom, mas também nao era de todo ruim. Pensava na praia e na data do carnaval que pela primeira vez ela nao sabia quando era. Pra quê? Tao longe.
Acabara de voltar de uma reuniao no planeta marte – assim imaginara. Se o povo moderninho da terra dela já era meio over de vez em quando, que dirá esses por essas bandas. Blusas coloridas por baixo de ternos cinzas de corte clássico, brincos em lugares nunca d`antes pensados, botoes eletrônicos de diversas cores, fios e mais fios, monitores plasma, câmeras prateadas! Era 2046? Indagava a si mesma e ria ouvindo Alfie, novo álbum do Sonny Rollins no seu ipod shuffle. Nao ligava muito para a música, colocou os fones brancos como velhinhas esquecem a TV ligada: um hábito para fingir que há possíveis interlocutores pelo caminho.
Marcianamente feliz, pensa que nao tendo consciência do que se passa naquele planeta do outro sistema solar talvez seja possível ser completamente feliz por cá.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Que saco o individuo pos-contemporaneo

A gente sempre sabe o que o outro quer, mas finge para si mesmo que nao sabe na esperanca de descobrir que o querer dele é o nosso desejo. Mas as pessoas podem querer num dia uma coisa e no outro, outra. Podem nem saber o que querem. Quando nao sabem o que é levar um pé na bunda, pior ainda. Nao um qualquer, mas daqueles bem no meio, em cheio. Pé na bunda é transformador, ajuda o sujeito a tomar decisao em relacao aos seus próprios sentimentos futuros. Esse negócio de ser confuso nao tá com nada.